“A gente corta um paninho, uma camiseta, bota um papel higiênico”: o relato de quem não consegue ter acesso a absorventes todos os meses

A menstruação é uma parte natural da vida de milhões de mulheres e pessoas que menstruam ao redor do mundo. No entanto, a dificuldade de acesso a produtos higiênicos, como absorventes, é uma realidade dolorosa e desafiadora que afeta particularmente indivíduos em situação de vulnerabilidade social. Ao refletir sobre esse tema, ouvimos relatos como o de Raquel Alves da Fontoura, que ressalta a dura realidade de precisar improvisar utilizando panos e papel higiênico durante o ciclo menstrual. Este artigo pretende explorar essa questão a fundo, abordando tanto os desafios enfrentados quanto as iniciativas que buscam promover a dignidade menstrual.

A gente corta um paninho, uma camiseta, bota um papel higiênico: o relato de quem não consegue ter acesso a absorventes todos os meses

O relato de Raquel é um testemunho vívido dos desafios que muitas mulheres enfrentam. Em sua fala, podemos perceber a impotência diante da falta de recursos, uma situação que se torna ainda mais complicada devido ao desemprego e à necessidade de decidir entre despesas essenciais. Raquel, mãe de cinco filhos, é um exemplo de como a necessidade de improvisação se torna uma estratégia de sobrevivência. Essa realidade impacta não apenas a saúde física, mas também a saúde mental e emocional.

Esses relatos são frequentes em comunidades onde a pobreza menstrual é uma questão premente. A fala de Raquel revela que a ausência de produtos adequados não é apenas um problema de conforto, mas sim um desafio de saúde pública que afeta a dignidade e a qualidade de vida.

Além disso, a estigmatização em torno da menstruação contribui para o silêncio que permeia estas problemáticas. A falta de diálogo e informação sobre o ciclo menstrual perpetua mitos e tabus, levando ao sofrimento silencioso. Muitas mulheres enfrentam a menstruação em condições precárias, recorrendo a métodos inadequados que podem gerar sérios riscos à saúde, como infecções e irritações.

A realidade da pobreza menstrual no Brasil

A pobreza menstrual é um fenômeno complexo que se manifesta através da dificuldade em acessar produtos de higiene menstrual. No Brasil, a situação é alarmante: de acordo com uma pesquisa realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 19% das entrevistadas relataram que não tinham dinheiro para comprar absorventes, e 37% afirmaram ter dificuldades em encontrá-los em escolas ou locais públicos. Esse cenário é um indicador claro da desigualdade social que permeia nosso país.

A vida de Raquel, que conta como ficou em um centro de acolhimento após perder sua casa para enchentes, exemplifica como a vulnerabilidade pode agravar essa situação. A cada mês, o dilema se repete: como garantir a higiene menstrual das filhas com um orçamento já tão esticado? Nesse contexto, o improviso com materiais não apropriados se torna uma prática comum e alarmante.

Iniciativas e programas de apoio

Felizmente, algumas iniciativas estão sendo implementadas para combater essa realidade. O Programa de Promoção e Proteção da Saúde e da Dignidade Menstrual, lançado pelo governo federal, é um passo importante nesse sentido. Através do programa, meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade social podem obter absorventes gratuitamente em locais credenciados, como as Farmácias Populares.

Esse programa, além de ser um avanço significativo, ainda precisa se expandir e ser mais conhecido por todas as pessoas que podem se beneficiar dele. A operadora de caixa Anelise Goulart Sena da Silva é um exemplo de quem teve acesso ao programa. Ela relata que, após realizar o cadastro, consegue retirar absorventes para si e para sua filha. Esse tipo de programa é fundamental para garantir não apenas a higiene, mas também a dignidade das pessoas que menstruam.

A distribuição de absorventes na rede pública de ensino, em especial, é uma medida que pode transformar a experiência escolar de jovens. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, aproximadamente 15% das adolescentes já faltaram aula por não ter acesso a absorventes. Por isso, a entrega desses produtos nas escolas é de extrema importância para garantir a continuidade da educação e a igualdade de oportunidades.

Quais os riscos e consequências da falta de acesso a absorventes?

A falta de acesso a absorventes não é apenas uma questão financeira, mas traz consigo uma série de riscos e consequências diretas para a saúde. A ginecologista Victoria Campos Dornelles alerta que o uso de materiais improvisados pode levar a irritações e infeções, além de causar desconforto extremo.

Além disso, o uso de absorventes internos por longos períodos é uma prática perigosa que pode resultar em sérios problemas de saúde. Em muitos casos, mulheres acabam recorrendo aos serviços de emergência devido a infecções causadas pelo uso inadequado de produtos de higiene. Esses relatos destacam a necessidade de campanhas educativas para promover a saúde menstrual e a utilização correta dos produtos.

O impacto psicológico da falta de acesso a absorventes não deve ser subestimado. Estigmas e sobrecargas emocionais frequentemente acompanham a menstruação em contextos de pobreza, levando a um estado de insegurança e ansiedade. A preocupação constante com o acesso a produtos higiênicos pode afetar a autoestima e, consequentemente, o bem-estar emocional das mulheres.

Impacto na educação e na vida profissional

A interrupção dos estudos devido à falta de absorventes, como mencionado anteriormente, tem um efeito cascata na vida das jovens. A educação é um fator crítico para o desenvolvimento pessoal e profissional, e a ausência da escola pode encurtar as oportunidades futuras. Isso é especialmente relevante em comunidades vulneráveis, onde a educação é uma das únicas saídas para a superação da pobreza.

Angela Guiassul da Silva Portela Costa, mãe de quatro filhas, ilustra bem essa questão. Sua filha, que ficou sem ir à escola por falta de absorventes, não só perdeu aulas valiosas, mas também enfrentou consequências no trabalho e na vida social. A falta de recursos impacta diretamente a vida de muitas meninas, reforçando a ciclo da pobreza que se perpetua através das gerações.

Estigmas e tabus em torno da menstruação

A menstruação ainda é um tema envolto em tabus e estigmas em nossa sociedade. Muitas mulheres se sentem envergonhadas de discutir sua menstruação, o que leva a uma falta de informação e a um ciclo de silenciamento. Esse silêncio sobre a menstruação pode perpetuar mitos prejudiciais e práticas inadequadas.

O dia a dia de muitas mulheres em situação de vulnerabilidade é repleto de desafios que afetam sua saúde mental e emocional. Combater esses tabus e promover a educação em torno da menstruação é essencial para desconstruir preconceitos e garantir que todas tenham acesso a recursos higiênicos de forma digna e consciente.

Iniciativas de conscientização

É fundamental que campanhas de conscientização e educação sobre saúde menstrual sejam amplamente promovidas, principalmente nas escolas e em comunidades vulneráveis. O conhecimento sobre a menstruação e as opções disponíveis não apenas ajuda a desmistificar o assunto, mas também empodera as jovens a cuidarem de sua saúde e bem-estar.

A abordagem da saúde menstrual deve ser inclusiva, considerando as diferentes realidades e circunstâncias de cada grupo. A promoção de diálogos abertos sobre o ciclo menstrual ajuda a desencorajar os estigmas atuais e permite que as pessoas que menstruam se sintam mais confortáveis em buscar ajuda e informação quando necessário.

A importância da colaboração entre diferentes setores

Para abordar a questão da pobreza menstrual de maneira eficaz, é necessária a colaboração entre diferentes setores da sociedade: governo, ONGs, escolas e comunidades. Iniciativas locais podem se unir a programas governamentais para maximizar o impacto e garantir que o acesso a produtos de higiene compense não só a falta de recursos, mas também a falta de diálogo e informação.

Além disso, o envolvimento da sociedade civil é crucial para que se crie uma cultura de apoio mútuo. Iniciativas que promovem a doação de absorventes e materiais de higiene, bem como projetos voltados à capacitação de jovens e mulheres, podem efetivamente contribuir para a redução da pobreza menstrual.

Perguntas frequentes

Como posso acessar o Programa de Promoção e Proteção da Saúde e da Dignidade Menstrual?
O acesso se dá por meio do cadastro no aplicativo do programa, onde você pode encontrar as farmácias credenciadas.

É possível retirar absorventes para mais de uma pessoa?
Sim, uma vez que você estiver inscrito no programa, pode retirar absorventes para si mesma e para dependentes.

Existem outras iniciativas que ajudam na distribuição de absorventes?
Sim, várias ONGs e iniciativas comunitárias também realizam campanhas para distribuir absorventes em áreas vulneráveis.

Qual a quantidade de absorventes que se pode retirar?
Cada beneficiário pode retirar até 40 absorventes a cada 56 dias.

Quais os riscos de utilizar produtos improvisados durante a menstruação?
Use de materiais inadequados pode resultar em irritações, infecções e outros problemas de saúde.

Onde posso encontrar mais informações sobre saúde menstrual?
O site do Ministério da Saúde e organizações não governamentais que trabalham com saúde da mulher podem oferecer informações úteis.

A luta pela dignidade menstrual é um apelo a todas as instituições da sociedade. Em um país onde a desigualdade social ainda persiste, é imprescindível que se implementem medidas que garantam o acesso a produtos de higiene menstrual. As iniciativas, embora valiosas, precisam ser expandidas e divulgadas, para que nenhuma mulher ou menina tenha que enfrentar a menstruação sem o suporte adequado.

A grande questão é: até quando continuaremos a aceitar que meninas e mulheres improvisem com “um paninho, uma camiseta” e, muitas vezes, recorram ao papel higiênico? É uma situação que merece nossa atenção e ação. A dignidade menstrual deve ser um direito, e não um privilégio, pois todas as pessoas que menstruam merecem viver essa fase da vida com saúde, conforto e respeito.